Universalidade do ensino do Espíritos
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“A força do Espiritismo não reside na opinião de um homem, nem na de um Espírito; está na universalidade do ensino dado por esses últimos; o controle universal, como o sufrágio universal, resolverá no futuro todas as questões litigiosas; fundará a unidade da doutrina muito melhor do que um concílio de homens.” (1)

 

O mestre lionês concebia que a fenomenologia espírita constituía uma ordem de fenômenos radicalmente diferente daqueles estudados sob a égide do modelo positivista e materialista de Ciência, até então. Assim como coisas novas pedem palavras novas, fenômenos inusitados merecem, no olhar do pesquisador lúcido, a utilização de um novo método capaz de apreender o objeto científico na sua totalidade, indo além do que já afirmava o jeito materialista de fazer ciência e as leis descobertas, combinando os dados oriundos dos diálogos com os Espíritos juntamente, com a observação metódica, atenta e perseverante dos fatos.

 

Aliás, percebemos, ao passarmos os olhos sob as páginas da Revista Espírita, quando por ele editada, que os colóquios com os Espíritos não se estabeleciam sem questionamentos. Os ditados do além, trazidos pela mediunidade caracterizada por efeitos inteligentes, não ficavam sem novos e insistentes questionamentos. Era a marca do sábio pesquisador, Prof. Rivail, levantar dúvidas e problematizar as teses propostas pelos Espíritos.

 

O que diziam os Espíritos não era considerado verdade, pura e simplesmente, por se tratar da palavra de alguém domiciliado no mundo dos Espíritos, como erroneamente muita gente ingênua imagina ainda hoje, apesar das reiteradas advertências do hábil Codificador.

 

Nem os médiuns e nem os Espíritos foram considerados por Allan Kardec como seres infalíveis. Tanto uns como os outros são dotados de saberes relativos, condicionados sempre à sua condição evolutiva e matizados por suas matrizes culturais, sociais e históricas.

 

No caso dos médiuns, não podemos desconhecer o quanto suas matrizes conceituais têm presença na filtragem mediúnica, como se pode conceber ao estudarmos o papel do médium nas comunicações inteligentes, conforme o exposto em O Livro dos Médiuns, como o sendo de verdadeiro intérprete, e, aquele que interpreta empresta ao objeto de sua interpretação elementos de sua subjetividade.

 

Individualmente, a produção mediúnica tem um valor relativo a uma opinião de um Espírito fornecida por um médium. Caso a Doutrina Espírita tivesse sido assim concebida, não seria dotada da autoridade científica e filosófica que possui, se trataria de mais um sistema de ideias espiritualistas como tantos outros ou como as religiões que, de forma geral, conferem autoridade somente à letra das escrituras.

 

Os sábios – como eram chamados os cientistas no século XIX, nem sempre tão sábios quanto pareciam ser –, presos ao paradigma dominante de fazer Ciência, eram incapazes de verem na fenomenologia espírita motivo para uma completa observação dos fatos, normalmente, as análises que atribuíam descrédito a tais fenômenos eram superficiais e precipitadas.

 

Ignorando os limites metodológicos das ciências positivas que abraçavam, muitos pesquisadores, embora honestos, invalidavam os fatos espíritas por que esses simplesmente não atendiam aos seus critérios de repetição, medição e verificação em laboratório sob a ação exclusiva da sua vontade e não se sujeitavam a leis já conhecidas.

 

Os membros das corporações científicas desconheciam que esses fatos, revelando uma das forças da Natureza, eram tão antigos quanto a humanidade, vindo, naquela época, a se reproduzir vertiginosamente, em vários pontos do globo, atendendo a uma intencionalidade certamente superior.

 

Do mesmo modo, se esqueciam de que, em se tratando de inteligências invisíveis, elas eram dotadas de vontade própria, não sendo possível subjugá-las, cegamente, ao desejo do cientista. Essa postura tão própria do dogmatismo científico é qualificadamente criticada por Kardec na introdução de O Livro dos Espíritos, no item VII, ao dizer inclusive que “o Espiritismo não é da alçada da Ciência.”

 

Allan Kardec, por sua vez estabeleceu uma metodologia capaz de verificar e validar as informações obtidas pelas entrevistas que encetava junto aos Espíritos, partindo da observação, da indução que constrói a generalização a partir dos fatos empiricamente observados e da dedução, que no caminho inverso, sugere como ponto de partida verdades universais rumo a outras mais particulares. Mas foram os Espíritos que se revelaram como tais, essa descoberta não foi fruto de uma hipótese elaborada por Kardec em seu escritório ou laboratório, diferentemente do que acontecia no campo nas ciências exatas.

 

E ainda, vale lembrarmo-nos de que o fenômeno transitou das mesas girantes, das batidas e diferentes manifestações físicas para as cestas e pranchetas com lápis, para culminar na escrita psicográfica, por sua vez, muito mais veloz e útil para dar materialidade ao conteúdo filosófico que os Espíritos Superiores estavam incumbidos de revelar.

 

Para entendermos, de maneira adequada, qual a metodologia criada e empregada por Allan Kardec para a sistematização da Doutrina dos Espíritos n’O Livro dos Espíritos, que, posteriormente, vai ser desdobrada noutras obras, é preciso visitar as páginas de O Evangelho segundo o Espiritismo.

 

Na introdução dessa obra extraordinária – em que encontramos a espiritualidade do Espiritismo de modo mais detalhado, onde Kardec se ocupa de trazer reflexões dos Espíritos Superiores e as suas próprias acerca da moral cristã, da aplicação ética dos ensinos de Jesus Cristo em todas as circunstâncias da vida – é que podemos apreender o controle universal do ensino dos Espíritos, a metodologia científica empreendida pelo Codificador.

 

O ponto capital dessa metodologia pode ser sintetizado assim: “Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares.” (2)

Para Kardec, o primeiro crivo a respeito de qualquer conteúdo trazido por alguns Espíritos era a análise da razão, do bom senso, para, a seguir, verificar a veracidade de qualquer princípio, contando com a contribuição de diálogos com outros Espíritos através de médiuns diferentes, que não fizessem parte do mesmo agrupamento espírita.

Somente aqueles princípios revelados coletivamente e que atendiam aos reclames da razão vieram a ser coletados por Kardec e acolhidos no corpo da Doutrina dos Espíritos. Os que careceram do aval do ensino coletivo não figuravam no rol dos saberes genuinamente espíritas, ficaram sendo considerados apenas como hipóteses e, o leitor atento verificará nas obras da Codificação que, quando o eminente professor se ocupa de uma hipótese ele a distingue claramente do que está firmado no ensino coletivo dos Espíritos.

Na concordância universal é que reside a melhor comprovação do que ensinam os Espíritos e mais, para que não haja falhas em seu emprego, devem ser levadas em conta as condições apontadas por Kardec. É nela que reside a autoridade da Doutrina dos Espíritos, como é fácil ver nos esclarecimentos a seu respeito que constam nas páginas introdutórias de O Evangelho segundo o Espiritismo.

As matérias que compõem as obras da Codificação foram elaboradas atendendo a esse critério, o do controle universal do ensino dos Espíritos. Naturalmente, vamos contar com as profundas reflexões e a genialidade de Allan Kardec na sistematização e no desdobramento dos princípios da Doutrina dos Espíritos.

 

(1) Allan KardecRevista Espírita, maio de 1864 – Discurso de abertura do sétimo ano social – 1º de abril – FEB

(2) Allan Kardec – Livro: O Evangelho segundo o Espiritismo – introdução – FEB

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